Sobre


Tal como Bruegel em A Queda de Ícaro nos diz que a natureza prossegue, indiferente ao nosso destino, foi em Araras, no ano de 1987, que recebi minha indiferença humana. Esta, que é um concerto de baionetas com espaços de beijo, logo nos dita suas regras e, com isso, coagulamos o sangue.

Privar tal repercussão em nosso organismo tornou-se o meu itinerário.

Da angústia, centro no qual o drama cósmico se desenrola e lugar onde a criação faz seu labirinto de acasos, nutro o sentido de meu movimento. E se falo em poesia, não é por hábito trágico, mas porque assim diz-se muitos caminhos.

É sempre um problema da imortalidade este que rodeia a arte, embora seja efêmero seu traje e finita a sua matéria. Como nós.

E há também os imensos espelhos a circularem dentro e fora de nós, trazendo às mãos esses pedaços de vida, essas bigornas da história.

Assim, Ícaro, com suas asas de cera, mesmo caído em meio à indiferença, deixa-nos sempre um vestígio, um indício de sua existência. Se tal feito é semelhante ao que chamamos arte é apenas uma possibilidade, uma suposição. Mas ainda é uma escolha: entre a flecha do mito ou o esquecimento, o que desejamos verdadeiramente?